Sexta-feira, Setembro 05, 2008

O WALDICK DE CADA UM DE NÓS



Quando moleque, sempre achei o Waldick Soriano sinônimo dos piores momentos do Programa Silvio Santos. Provavelmente nunca falei isso por aqui, mas eu abomino o Silvio Santos.

Anos depois, quando a barba já tomava meu rosto, fui inspirado por Falcão Marcondes (o maior filósofo do cotidiano dos anos 90) a pesquisar sobre música brega. A Internet deu uma (dane-se o cacófato) mãozona e passei a conhecer quase a fundo o submundo da música popular brasileira dos anos 60, 70 e 80 – entenda-se música brega.

Mas, diferente do que ocorria com Odair José, Almir Rogério e Reginaldo Rossi, só para citar alguns, eu continuava a ignorar o Waldick Soriano. A voz dele era consideravelmente péssima e as letras, além de tratar exclusivamente da dor de cotovelo, não permitiam gargalhadas como as canções dos outros três, por mais que esta não fosse a intenção deles (e por mais que eu ainda encontrasse alguma sensibilidade nelas).

Um dia isso mudou. Há dois anos comprei na Netto Discos – gasto um salário por ano na Netto Discos - um CD da Maria Creuza, a cantora de MPB que me faz lembrar que, às vezes, a vida pode ser muito bela. Nele ouvi uma canção que me deixou tal qual manteiga no sol chamada Tortura de Amor, que virou post neste hebdomadário virtual. Meu queixo visitou o umbigo ao constatar no encarte que Waldick Soriano era o autor dela. Não era possível: aqueles acordes profundos e tão sentidos foram concebidos pelo músico que sempre rejeitei.

Pois bem, a história de Waldick Soriano é uma história de rejeição. Sua mãe o abandonou quando menino - como qualquer psicólogo pode deduzir, era a pessoa a quem ele mais se apegava no mundo. Anos depois, já se aventurando a soltar a voz de troglodita, Waldick era vítima de chacota na cidadezinha do interior da Bahia em que vivia. Era feio pra dedéu. Chegou a ser garimpeiro. Veio para São Paulo trabalhar como engraxate. Se havia alguém para quem a vida era um cactus enterrado na alma, este alguém era Waldick Soriano.

E então o que fazia Waldick? Ao contrário de mim e, talvez, de você, angustiado leitor, o mais famoso dos cantores brega não ruminava suas desilusões. Vestia-se de preto, enterrava o chapelão na cabeça e cantava sua rejeição. A diluía toda na música. Viveu bem assim.

Waldick Soriano tinha pose de macho, o cara durão à moda antiga, mas no fundo só queria mostrar que o jiló dessa vida cumprida a sol é que o fez deste jeito, e que, apesar de tudo, havia alguma doçura dentro dele. É como uma rapadura moral e que também existe dentro de cada um de nós. Todo mundo já se rasgou por paixões não compreendidas, amores não correspondidos, chifres, fez tempestades em copo d´água ou já tomou um porre por ser rejeitado enquanto se sentia o pior dos seres humanos dessa vida. Às vezes a gente pensa que é Frank Sinatra; quando menos espera, dá de cara com o nosso Waldick Soriano.

Que o Paraíso dos desiludidos, incompreendidos e rejeitados conforte os timbres melodramáticos do grande ícone dos que nunca foram ícones. Descanse em paz, meu caro.



Quinta-feira, Setembro 04, 2008

ESCANCARANDO DE VEZ

Sonhei que fui ver ao vivo uma partida de basquete num ginásio qualquer. Não lembro quais eram os times. Tudo que lembro é que o pontapé inicial - no caso do basquete, quando a bola é jogada para cima - foi dado pelo Elymar Santos.

Não tenho nenhum comentário a fazer sobre isso.



Segunda-feira, Setembro 01, 2008

E AGORA, UM MOMENTO CULTURAL



Porque a vida é feita de pequenas alegrias.*

*Crédito: Libanesa



Domingo, Agosto 31, 2008

POLÍTICA, PINDAMONHANGABA E O ALASCA

Todos sabem que sou um excepcional comentarista de política internacional. Á Áustria nunca mais foi a mesma depois que SorryPeriferia dissertou sobre o porão da família Fritzl. Já Francis Fukuyama leu a comparação física entre Obama Barack e Dadá Maravilha postada aqui há alguns meses e declarou: "É o fim da História". Pois vou seguir nesta toada de sucesso, mas não sem antes falar sobre as eleições municipais paulistanas.

Tenho um amigo que trabalha na campanha de Geraldo Alckmin. Ele está apaixonado pelo candidato tucano. É sério. É comum chamarmos as pessoas que gostamos de "Chuchu", mas nunca vi tamanha propriedade quando este meu amigo chamou o dito cujo de "o meu chuchu". Primeiro, porque Alckmin é a encarnação humana desta leguminosa e, segundo, porque havia no olhar deste meu amigo um pantagruélico estupor sexual. Coisas de campanha.

Mas o fato é que, tirando a tietagem explícita deste meu amigo, Geraldo Alckmin está só. Primeiro foi o prefeito Giba Kaká que nem cogitou em apoiá-lo, como queria o tucano. Preferiu a carreira solo e, se as pesquisas continuarem assim, é até capaz de ir ao segundo turno no lugar do outro. Depois, o governador José Serra viu que Geraldo estava na beira do precipício e resolveu ajudá-lo a dar um passo a frente: apoiou o Giba Kaká.

Veja bem, eleitor leitor, a coisa não pára por aí. Desde 1994 que eu era obrigado a agüentar o Dominguinhos fazendo a maioria dos jingos de campanha do PSDB. No entanto, esta semana liguei no horário político e não havia nem sinal do forrozeiro. É impressionante: até o Dominguinhos abandonou Geraldo Alckmin.

Em favor da falta de carisma do mais leguminoso dos tucanos está o fato de que existe uma tendência internacional em políticos sem carisma, mesmo com esta onda de achar que o Obama Dadá Maravilha é o novo Messias. John McCain, o republicano candidato a brincar com estagiárias no Salão Oval da Casa Branca, escolheu uma vice-candidata que é um chuchu, no mau sentido.

A companheira se chama Sarah Pelin, tem 44 anos, cinco filhos e é governadora do fundamental estado do Alasca - segundo um estrategista da campanha democrata, "McCain escolheu uma vice que é a governadora de primeiro mandato de um estado que tem mais rena do que gente"*.

Sarah Pelin é casada, tem cinco filhos e seu marido é quem leva os cinco filhos pra escola. Até aí tudo bem. Mas antes que alguém comece a enxergar ares de feminismo na moça, é melhor avisar que ela é membro-militante da Associação Nacional Do Rifle (que o Exu Bebeta o tenha, Charlon Heston), é contra o casamento gay e o aborto, adora uma caçada e recentemente ficou possessa porque botaram o urso polar na lista de animais sob risco de extinção. Segundo ela, colocar o urso nesta lista dificulta a exploração do petróleo nas reservas onde eles vivem.

O fato é que McCain jogou na lareira o único discurso que tinha para beter no Babá Maravilha: a falta de experiência. Vai ver o que McCain, vendo que o elefante republicano está atolando-se no brejo, resolveu trucar e colocar um ingrediente inusitado jogo desta eleição: a desconhecidíssima Sarah Palin. Se nem a razão nem a emoção estão do seu lado, o melhor é apelar ao exótico.

Se as próximas pesquisas anunciarem um crescimento do McCain, Geraldo poderia seguir a mesma estrégia e anunciar alguma bizarrice, tal como adotar o Aerotrem do Levi Fidélix ou anunciar o Sérgio Mallandro (candidato a vereador) como Secretário da Cultura. Amadurecimento das instituições democráticas é isso aí.

*frase tirada do Estadão deste sábado.



Quinta-feira, Agosto 28, 2008

DE REPENTE, UM ACONTECIMENTO IMPRESSIONANTE

Aproveitando a quentura da noite desta quinta-feira, saí por aí a caminhar para aliviar as marcas de pneu nas minhas costas e acender um cigarro existencial nalgum bar. O escolhido, muito por acaso, foi o Esquina do Fuad, que é, ao mesmo tempo, um dos piores bares de São Paulo e um dos que eu mais freqüento (não deixe de reparar nos erros de português do cardápio, que dão um charme nada especial ao recinto).

Depois de duas Serra Malte e de ficar chuchando um pãozinho no azeite jogado ao prato, fazendo de conta que o azeite é de oliva mesmo, e não óleo Soya, eis que surge do meu lado um dos meus ídolos: o apresentador Nerivan Silva, do Amigos do Forró, espetacular programa brega/trash que passava na TV Gazeta aos sábados à tarde.

Nerivan está com um cabelão anos 80 a la Echo and the Bunnyman e foi logo pedindo uma chuleta na brasa. Engasguei de emoção. Bati nos bolsos da calça procurando a câmera fotográfica, mas ela ficou em casa.

Se eu fosse um fã profissional, teria perguntado qual o futuro do Amigos do Forró, teria questionado sobre a marca de xampu que ele usa, teria ao menos oferecido o prato com óleo Soya pro Nerivan também chuchar um pãozinho.

Mas não. Pedi a conta e fui embora. Eu e essa mania de fugir do sucesso. Besouro, quando cai de costas, não se levanta nunca mais.

P.S.: Aqui, uma espetacular entrevista em ping pong com Nerivan Silva.



DE QUANDO EU ME TORNEI POLÊMICO

Foi mais ou menos assim: era aula de História da Arte com uma professora para quem um dia alguém disse que seria uma gênia ou uma louca. Essa pessoa evidentemente estava mentindo, pois juro por minhas unhas encravadas que ela era 100% doida varrida, mas doida varrida mesmo, com gigantes exclamações ao fim desta expressão.

Ela explicava a diferença entre impressionismo e expressionismo porque era a única coisa que ela conseguia fazer. A companheira doida varrida então pediu para que exemplificássemos uma comida que fosse impressionista - leve, sutil - e outra expressionista - forte, chocante.

Bem, eu gosto de exemplificar coisas. Mas na hora de falar sobre minha experiência gastronômica impressionista, outros alunos ergueram o dedinho antes e citaram o mousse de maracujá. Ok, mousse de maracujá é impressionista.

Na hora de citar um exemplo expressionista, novamente fui lento o bastante para permitir que outra pessoa erguesse o dedo antes e citasse o mousse de chocolate. Ergui as sobrancelhas em reprovação. Mas a doida varrida do corpo docente juntou as mãos e, atônita, bateu palminhas curtinhas: "Excelente!!! Mousse de maracujá é mais leve; o de chocolate é uma experiência mais expressionista mesmo!!!".

Inconformado com o último exemplo, ergui os dois braços e já fui logo rasgando: "Professora, expressionista pra mim é buchada de bode...".

Parte dos presentes riu, outra parte me censurou por atravessar a experiência artístico-gastronômica de maneira tão pouco sutil, e a companheira professora da porca solta me repreendeu com a veemência de um Napoleão de hospício.

Mas apostaria uma buchada de bode que eu ainda tenho razão.

Moral da História 1: Quando um louco está acima de você, não importa o que ele faça: o louco sempre vai ser você.

Moral da História 2: A bienal de arte moderna está chegando e a polícia não faz nada.



Terça-feira, Agosto 26, 2008

NÃO TEM SUPER TRUNFO NAS OLIMPÍADAS

Olha, até acho que houve um tempo em que os Jogos Olímpicos eram algo sensacional. Não, fino e escasso leitor, não boicotei as Olimpíadas de Pequim e inclusive perdi algumas madrugadas para assistir, por exemplo, uma dupla brasileira do vôlei-de-praia perder para a da Áustria, que não tem praia. Se fosse vôlei-de-porão eu até entenderia, porque de porão os austríacos entendem, conforme atestaria a família Fritzel. Mas também não tenho nada que falar mal da meia dúzia de medalhas de bronze que o Brasil trouxe da China.

Para falar a verdade, olímpico leitor, há algo que me incomoda muito. É como uma pedra no rim moral. Trata-se da decepção por conta da amarelite aguda que toma conta da psique do atleta brasileiro em momentos importantes, e que em Pequim atingiu os 40 graus no termômetro no judô e na ginástica artística.

Veja só que vida miserável tem um atleta. Peguemos (no bom sentido) o Diego Hypólito, ginasta até então considerado o melhor do mundo e que caiu sentado (no bom sentido) no tablado junto como sonho da medalha olímpica. Anti-carismático por natureza e consideravelmente arrogante, Diego passou a maior parte de sua vida ouvindo um treinador ucraniano gritar todos os dias os dias todos para que ele melhorasse cada salto, cada movimento, cada gesto. Aos poucos ele passou a se destacar, ganhar competições cada vez mais importantes, e, conseqüentemente, a ouvir o tal ucraniano gritar cada vez mais para ele se preparar cada vez mais para o objetivo maior, que era o ouro olímpico. Não deu. Minutos depois de encostar os glúteos no tablado ao vivo para milhões de pessoas, um destroçado Diego deu entrevista aos prantos pedindo desnecessárias desculpas ao Brasil.

Se o financeiro leitor acha que o Diego Hypólito ganha o suficiente para viver sob confinamento e tamanha pressão, simplesmente não entendeu nada do que estou tentando dizer. Isso não tem nada a ver com dinheiro. Eu não trocaria nada desta minha vida classe média tatibitate pela vida de um atleta de alto rendimento. Enquanto nos últimos quatro anos eu passava as terças-feiras à noite no Asterix jogando conversa fora com os amigos e calibrando a barriga de cerveja, Diego dormia sonhando com medalhas olímpicas.

Para não ficar apenas nos mal sucedidos, peguemos o exemplo de César Cielo, primeiro medalhista de ouro da história da natação brasileira. Se refugiou dos Galvões Buenos da vida ao ir aos Estados Unidos, onde treina em uma universidade no Alabama. Há alguns meses, a revista Piauí fez um perfil da vida que Cielo leva nos States. Seu técnico é tão comovente quanto um ditador latino-americano dos anos 70: grita sem parar, é constantemente cruel com o nadador (o objetivo é sempre incentivá-lo) e o confina o máximo possível. Moral da história: a vida de Cielo é tão interessante quanto a de um exilado na Gulag. Quando Cielo levou o ouro, chorou feito uma criança. De alívio, claro. Se ele refugasse tal qual Baloubet do Rouet fez nos Jogos de Sidney, vai saber o que aconteceria com a cabeça do menino.

O amigo Leandro Beguoci tem escrito ótimos posts desancando o Bernardinho, técnico da seleção masculina de vôlei. Bernardinho é o tipo vencedor que tem legiões de fãs entre os alpinistas corporativos que têm como único objetivo de vida subir na empresa. “Ele é osso duro, tira o sangue do time, sempre mostra resultados”, já cansei de ouvir. Não, toupeira, Bernardinho é uma figura deplorável. Se para atingir um objetivo eu tiver que viver sob a angústia e o medo, então este objetivo não merece ser atingido. Prefiro ficar tomando cerveja no Asterix.

Triste daquele que vive em função de um só objetivo na vida. E o esporte de alto rendimento é isso: percamos a vida por a merda de uma medalha. Vou injetar umas tranqueiras nas minhas veias, vou morrer de câncer aos 40 anos, mas vou ganhar o ouro e entrar para a História.

Lembrei de tudo isso neste sábado, quando voltei pra minha terra e dei de cara com minha coleção de Super Trunfo. Passei boa parte da infância a jogar cartas com o vizinho da frente na garagem dele ou na minha. Este meu amigo hoje é metalúrgico, trabalha de madrugada e quase não temos contato. Sei dele por minha mãe, que fala com a mãe dele, e vice-versa. Nas poucas vezes em que nos vemos, de relance, sempre encerro as conversas com “Qualquer dia passo na tua casa pra gente jogar um Super Trunfo”. Se fosse modalidade olímpica, eu iria a Pequim, com certeza. E não estaria muito preocupado em ganhar medalhas. Não é essa a liturgia da coisa. Chupa, Michael Phelps.



Domingo, Agosto 17, 2008

OSCAR NIEMAYER, O MICHAEL SCHUMACHER DA GERIATRIA

Pois é, não tem mais bobo na terceira idade. 2008 chegou para abalar os corações mais sensívels (safenados) e já mostrou que joga no time de Oscar Niemayer, o arquiteto de Stonehage.

Veja só: até o mês de junho, nosso Matusalém predial tinha concorrentes centenários ou quase centenários à altura, todos com suas dentaduras cerradas para - como diriam Milionário e José Rico - ver quem chega mais longe nesta longa estrada da vida.

Mas em junho foi-se Jamelão aos 95 anos. O grande Jamela puxava samba-enredo no Morro da Mangueira desde que este tinha vista para a África, não para o Oceano Atlântico, porque durante a Pangéia era tudo ali grudadinho. Não precisava nem de uma Rio-Niterói. Mas nos últimos anos, tal qual a Super Aguri na Fórmula 1, o motor dava sinais de que ia pifar em breve. E pifou. Atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu.

Eis que veio o mês de julho e levou a líder da prova, Dercy Gonçalves, que chegou aos 101 anos esbanjando absolutamente nada. É como a McLaren, que sempre entrega no final. E Niemayer viu-se então líder da prova com certa folga, seguido a uma certa distância por Dorival Caymmi que, com seus 94 anos, permitia ao arquiteto poder até dar uma parada nos boxes e mesmo assim voltar líder à corrida.

Mas agosto chegou e levou Dorival para Maracangalha, deixando Niemayer sem o mais longínquo sinal de que terá adversário pela próxima década. É o Schumacher da velhice. Quem tem Oscar não precisa de Cocoon.

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Agora prometo voltar ainda esta semana com alguns comentários sobre os Jogos Abertos do Interior que estão ocorrendo ali em Pequim. Como diria Nietzsche: "É, amigo... haja coração!!!!"



Terça-feira, Agosto 05, 2008




Segunda-feira, Julho 28, 2008

OS MUTANTES: CAMINHOS DO CORAÇÃO

Ando tão babeta que escrevi o último post e as pessoas não entenderam absolutamente nada. Vou tentar explicar: eu quis dizer que não tirarei férias do blogue, mas também me reservo o direito de não fazer nenhum sentido. Os assuntos importantes para os caminhos da humanidade no momento são importantes somente para a humanidade. Para mim, o que interessa mesmo são tag clouds, spaceids, hotlist paths, API´s e outras nerdisses impressionantes. Durante todo agosto, você, nababesco leitor, só verá aqui coisas fúteis, como as que eu vou contar no próximo parágrafo, assim que colocar o ponto final aqui, pular uma linha e colocar os dois dedos pra dar espaço da margem, como ensinou minha professora da primeira série.

Não sei se você já teve a oportunidade de acompanhar a levemente retardada novelinha da Record que dá nome a este post. Confesso que não entendi bem o título. Parece que o autor babou na gravata ao tentar abraçar o mundo no nome. Tem mutante no imbróglio, logo contém ficção científica, e já imagino o Tuca Andrada interpretando um Wolverine evangélico. Mas também tem caminhos e tem coração, donde-se deduz que os mutantes vão viajar pra cacete e também vão se apaixonar pela rapaziada. Enfim, diversão pra família inteira.

Inspirado por Os Mutantes: Caminhos do Coração, vou passar a criar títulos de posts que fazem nenhum sentido e que também querem abranger o maior número de assuntos. Deixo aqui sugestões de títulos para as futuras novelas da Record:

- Humberto Martins e Leo Jaime: Não tem mais bobo no futebol.

- Emmanuelle nas Galáxias: A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

- A difícil vida dos suricatos: tira a calça jeans e bota o fio dental.

- Lei de incentivo fiscal: Vou-me embora para Pasárdega.


Como diria o Feliz: "E piririri, e pororô".



COISAS PRA SE FAZER NA WEB QUANDO SORRYPERIFERIA ESTÁ MORTO

Não sabe o ilustre leitor que, no começo de 2007, fiz um pacto comigo mesmo. Uma coisa assim meio Paulo Coelho. Fui para minha terra natal, cacei um morcego vesgo no cemitério e, numa noite de lua cheia, fiz um refogadão com o bicho (exagerei na noz-moscada) e o tomei-o emitindo cânticos que aprendi em vidas passadas. Dois fatos resultaram deste pacto: primeiro, me engasquei todo, uma vez que não é possível tomar um refogado ou qualquer outra coisa ao mesmo tempo em que se cantarola uma canção do Jamelão, quanto mais ao emitir cânticos de vidas passadas. Segundo, que passaria os anos de 2007 e 2008 absorto em trabalho árduo, mas que no fim deste período eu teria minha vida pessoal de volta.

Pois bem, este pacto encontra-se em seu auge neste fim de julho e deve adentrar agosto com a quinta engatada, colocando-me um pouco distante deste blogue e de qualquer outra coisa que não seja o trabalho árduo e o álcool excessivo. É por isso que estas mal trançadas linhas andam perigando, dissertando sobre o supérfluo ou, não poucas vezes, sobre o nada.

Para o momento, este blogue não passará por uma pausa e continuará dando vazão a assuntos pouco interessantes, justamente para não perder o hábito da escrita. Em poucos meses, o ilustre leitor poderá conferir, tal qual uma Dalva de Oliveira, que estarão voltando as flores, o que deverá merecer um pileque homérico e uma reformulação do visual bloguístico (migrar ou não migrar para o Wordpress?).

Enquanto SorryPeriferia fica na defensiva, sugere que o fino leitor acompanhe as aventuras de Maurício Savarese e Felipe Corazza na China, uma dupla da pesada que vai aprontar as mais loucas aventuras durante os Jogos Olímpicos de Seul (Pequim? Tòquio? É tudo a mesma coisa).

Aos quatro leitores deste blogue, portanto, digo estas palavras de sapiência filosofal: o que é imortal não morre no final. Rimou tudo e tenho dito.



Terça-feira, Julho 22, 2008

O MAU GOSTO ESTÁ DE LUTO

A morte de Dercy Gonçalves, a última atriz de cro-magnon, é um fato relevante exclusivamente porque deixou Oscar Niemayer, o arquiteto de Stonhage, líder no ranking de geriatria avançada no mundo dos famosos. Veja só, não há um mísero famoso chegando perto dele.

De resto, quem fala que Dercy Gonçalves foi uma pessoa irreverente, como pregam vários atores, está babando na gravata. Ela foi, na melhor das hipóteses, uma atriz de chanchada com algum carisma e uma velha que falava palavrão. Felizmente, todos os meus amigos presentes no último bar compactuam da opinião.

Segue o jogo.



Segunda-feira, Julho 21, 2008

IT HURTS TO SET YOU FREE, BUT YOU´LL NEVER FOLLOW ME

Quando todos os seus ídolos têm mais de 60 anos, se não há algo errado com você, certamente o há com o restante da humanidade. Mas não seria esta última uma hipótese arrogantemente improvável?

Se Che Guevara saísse vivo da selva boliviana, quem garante que não seria ele quem teria promovido o neoliberalismo na América Latina durante os anos 80?

Será que um sessentão Jim Morrison, ídolo de 9 em cada 10 adolescentes revoltadóides, não estaria hoje dividindo os palcos com Britney Spears?

Por outro lado, se Brizola tivesse morrido na década de 60 e não em 2004, depois de tantas alianças políticas espúrias e tantas frases infelizes, não estaríamos agora carregando cartazes com a inscrição "Brizola Vive"?

O tempo é implacável em abalar valores de muitas das grandes pessoas que estão vivas. Na pior das hipóteses, os anos os transformam em bobões chatos que abrem a boca para exalar o mau álito anacrônico que tomou o lugar de antigas palavras de sabedoria.

Em todo caso, ainda é muito melhor que não ter ídolos.

Ou não?



Quinta-feira, Julho 17, 2008

A HORA EM QUE A CRIANÇA CHORA E A MÃE NÃO VÊ

Sonhei que abandonei fisicamente o local que trabalho e passei a despachar em uma espécie de pousada para pessoas que trabalham. Explico: é como uma pousada, no meio de uma selva, mas com todo mundo com seu notebook e um telefone ao lado. Todos eram obrigados a trabalhar três horas sem parar e, em seguida, ter três horas para beber e comer churrasco - não me pergunte do porquê do churrasco. E era esse esquema todos os dias.

Lembro de que fiz um monte de amigos, nenhuma pessoa que eu conheça na vida real. Lembro que fiz amizade com um sujeito branquelo que ficou bêbado, sumiu e depois de dias voltou de táxi para a pousada, ainda alcoolizado. Quando ele saiu do táxi, o motorista muçulmano acionou um dispositivo que explodiu uma bomba atômica. Me escondi atrás de um muro e vi tudo voar pelos ares, as pessoas, a pousada, exceto eu, a planta que estava ao meu lado e esse inexplicável muro. E fiquei horas assim, atrás do muro, esperando o vento e o clarão passarem, vendo um cogumelo gigantesco se abrir sobre mim, tentando achar uma solução rápida e genial para escapar da massa atômica que me esmagava contra a parede.

É a segunda vez que sonho com bomba atômica, que a visualizo, que vejo minha camisa rasgada por um clarão. É a primeira que acordo com dor de cabeça.



Domingo, Julho 13, 2008

AS ALGEMAS E A CIRROSE

Do enviado a Jundiaí

Ficar bêbado na cidade em que a gente nasce é alugar o próprio cérebro para uma sessão de cinema interna que passa pelos neurônios alucinadamente, às vezes sem sentido, e que acionam porres anteriores, amigos antigos, amores passados, festas, desilusões, as grandes coisas que você fez, as grandes coisas que você não fez e por aí vai. Tudo porque você voltou a andar bêbado pelas mesmas ruas que já te assistiram a fazer isso outras tantas vezes e que parecem te abraçar, como a um vizinho antigo, e dizer "Volte sempre".

Ficar bêbado num país que não é o seu te obriga a dar um Control+ALT+DEL no GPS da sua cabeça pois, ao pensar, no fim da noitada, "agora tenho que voltar pra casa", você cai na gargalhada, porque a sua casa está 8 mil quilômetros longe e seus pés não reconhecem aquelas ruas, sua bexiga estranha aqueles postes limpos e o Bar do Estadão está longe demais pra você amanhecer comendo um pernil.

Ficar bêbado no dia-a-dia é uma forma de deixar os problemas ali na esquina te esperando enquanto você entorna o caneco. Depois vocês dois vão juntos pra casa e no dia seguinte tudo começa de novo, só que com dor de cabeça e de estômago.

Para quem tem superego militarista, cair bêbado cotidianamente é uma competição acirradíssima entre o seu próprio superego e o seu fígado. É como o rochedo e o mar. No entanto, o superego tem a vantagem de só existir no campo das idéias, o que com o passar dos anos faz diferença, além de a cirrose e a hepatite lhe ser indiferente.

Ficar bêbado em tempos de lei seca para motoristas é desistir de sair, comprar bebida pra tomar em casa e ficar absolutamente emotivo com qualquer música, qualquer trecho de livro ou qualquer outra coisa que te faça recordar que o mundo lá fora é tão interessante, mas que, neste exato instante, você não está fazendo parte dele.